sábado, 19 de outubro de 2013

Pé de vento!

Às vezes eu tenho receio de dizer certas coisas, pois temo não ser entendida...
Hoje eu acordei a própria poesia. Como se a vida estivesse cheia de sentido pleno, como se a arte a ela se misturasse e a beleza se fizesse presente. Hoje fui presenteada com uma palavra: a querência... Palavra tão bonita que me trouxe de volta paisagens internas belas e profundas. Me vejo como um espiral de vento a dançar. Uma alegria só! Várias coisas me trazem a esse momento, mas de alguma maneira, que ainda não sei qual, fui conduzida a esse lugar de graça que sinto agora. Meio insano tudo isso, mas prefiro me deleitar com o girar do vento à pensar qualquer coisa sobre ele.
Só tenho a agradecer. E torço para que a gentileza alheia entenda esse transbordar de vida como se olhasse a beleza do bater de asas de uma borboleta pousada nas mãos. E nada além disso.

Hoje fui tocada na alma por um dia lindo de sol.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Eu-Ogum!


Contos, histórias, mitos, masculino e feminino, arquétipos, self, alma.
Desdobra, desdobra, desdobra.
Conhece o corpo a partir do osso, oco, poroso, cheiro de sangue, de vida.
Toca, aperta, corta, entra, massageia, sente, vive!
“Ogum violenta e maltrata as mulheres”. Mergulha no mito, ultrapassa a primeira camada da história, conversa com ela... O que ela trouxe pra mim, o que eu tenho pra ela?
Ogum sou eu, homem e mulher. Eu-homem violento eu-mulher?
O osso, os ossos...
A cintura superior, o centro. 
Ele vai ao chão, mergulha no asfalto, roça, bate, machuca, estupra, quebra, corta, torce, destrói.
Parede, peito, clavícula, dor presa. 
Dor, dor, dor, dor.
O feminino morto, despedaçado. O feminino inteiro, fragmentado.
Fui eu, minha irmã, minha mãe, minha tia. Foi você. Sim, foi você.
O corpo se arrasta, cai, precisa se manter vivo, sobreviver. E luta, luta, luta. Luta para se transformar. Busca a força dos ossos estilhaçados. Junta e cola tudo, dentro do casulo. Espera solidificar...
Dói, dói, dói...
É a mesma espada, o mesmo braço, o mesmo peso.
As asas estão cheias de resina. Não é possível voar. Há ainda que se criar cicatrizes, raízes aéreas, asas feitas de ossos.
O peito dói. O ventre está oco.
Fui eu mesma quem me violentou?
Que direito você tinha de fazer isso comigo, com ela, conosco?
O corpo é uma festa, mas ainda há tristeza em volta.
Amor? Amor!

sábado, 11 de maio de 2013

Receita para arrancar poemas presos

A maioria das doenças que as pessoas têm
São poemas presos.
Abscessos, tumores, nódulos, pedras são palavras calcificadas,
Poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado.
Prisão de ventre poderia um dia ter sido poema.
Mas não.
Pessoas às vezes adoecem da razão
De gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida
Escorrendo em estado de lágrima
Lágrima é dor derretida.
Dor endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida.
Alegria endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida.
Raiva endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida.
Pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor.
Tempo derretido é poema
Você pode arrancar poemas com pinças,
Buchas vegetais, óleos medicinais.
Com as pontas dos dedos, com as unhas.
Você pode arrancar poemas com banhos
De imersão, com o pente, com uma agulha.
Com pomada basilicão. Alicate de cutículas.
Com massagens e hidratação.
Mas não use bisturi quase nunca.
Em caso de poemas difíceis use a dança.
A dança é uma forma de amolecer os poemas,
Endurecidos do corpo.
Uma forma de soltá-los,
Das dobras dos dedos dos pés, das vértebras.
Dos punhos, das axilas, do quadril.
São os poema cóccix, os poemas virilha.
Os poema olho, os poema peito.
Os poema sexo, os poema cílio.
Atualmente ando gostando de pensamento chão.
Pensamento chão é poema que nasce do pé.
É poema de pé no chão.
Poema de pé no chão é poema de gente normal,
Gente simples,
Gente de espírito santo.
Eu venho do espírito santo
Eu sou do espírito santo
Trago a Vitória do espírito santo
Santo é um espírito capaz de operar milagres
Sobre si mesmo.


Viviane Mosé

terça-feira, 7 de maio de 2013

Há que se silenciar os ossos

Hoje é preciso silenciar. Há que se silenciar os olhos, o suspiro, o sopro, a traqueia, o peito, o ventre, o sangue e os ossos, principalmente os ossos. As sincronias de hoje me fizeram compreender a vacuidade desses canos porosos, ocos, que absorvem, trocam, são vazios e ao mesmo tempo cheios de vida. Vida que flui como o pulsar do coração, como o movimento dos pulmões. É chegado o tempo da escuta, do nascimento, do bater das asas, do amolengar os poemas endurecidos do corpo, da dança. Resolvi segui a receita e usei a dança para libertar os poemas presos do meu corpo. Forjei com ferro o corte de liberdade e esperei o casulo se abrir. Tive minhas asas massageadas, acariciadas, cuidadas e admiradas, não porque eram minhas, mas porque eram asas. E as asas precisam descobrir sua extensão para poder voar. Em silêncio, com gosto de ferro e corte, saí do casulo e vi minhas asas de borboleta começarem a bater fortes. Era o osso, vazio e cheio, pulsante e vivo, querendo voar.

domingo, 28 de abril de 2013

Canto de Sereia

A fotografia é esse canto de sereia perturbador que afasta os heróis da sua trajetória, desvia percursos, apresenta estradas sinuosas, projeta tormentas, abala estruturas. Pobre daqueles que se deixam encantar, estão condenados a um destino de entradas e saídas, do abrir e fechar inadvertido de janelas para momentos fugazes.

Valdenira Barros, na dissertação Instantâneos do Tempo: Fotografia e Memória nas "Viagens de Trem".

segunda-feira, 18 de março de 2013

Viver é muito perigoso

Eis que num domingo cinza, de garoa, bem paulistano, vem a alegria do vazio. Da cidade que não se sabe sua, mas de tantos. De uma saudade distante, de um amor que não é exatamente amor. De uma identificação absoluta – perseguição. Hoje teve chuva, teve a lembrança de um sonho, de um braço-abraço na madrugada. Da lembrança do amor abandonado, pra sempre, durante a manhã seguinte. Do não saber o quanto podemos atravessar as histórias alheias, ou ser nada. De pretensões, desilusões, sorrisos. Dos domingos rosas, atravessados por desertos e sertões. Há tristezas e sorrisos. Há um futuro. Há um presente, sem horizonte.

: era uma vez uma aula,

Era uma sala ampla, mas meio desajeitada, as janelas eram vermelhas e estavam contra a luz. Chovia, mas me recordo de uns raios de sol que tangiam a porta. Algumas pessoas chegaram atrasadas. Tantas gentes, gente tão diferente. Haviam também blocos pretos, pés descalços, mãos que se moviam, estranheza, sorrisos e acolhimento. Um ano depois eu voltava para esse mesmo lugar, que era outro, onde tudo era igual, mas também era novo, diferente. Acabei passeando em mim mesma, e quem sabe por todos os outros que também sentiam a sala. Passeei pelo corpo e pelo tempo. Abri um baú cheio de objetos, de brinquedos. Tirei uma bola de gude azul e deu até pra ver suas marcas brancas e sua transparência. Caminhei com ela sobre o pé. Passei por obstáculos, brinquei, sentei no chão. Troquei minha bolinha por um ioiô. E os brinquedos foram se transformando, viraram maquiagem, brigadeiro, lenço, bola de cristal. Curioso, quase todos os meus eles eram redondos feito uma bola. Peguei a maquiagem e pintei o rosto da minha irmã. Foi bom colorir um pouco a sua tristeza. Achei ela bonita! Eu me sentia segura e livre, mas as minhas inseguranças de menina também se fizeram presentes. A bailarina me pediu pra dançar porque suas pernas já estavam cansadas de não fazer nada. Uma cigana me ensinou brincando, cheia de sabedoria. Era tudo uma boniteza só. E tinha também acolhimento e uma praia de aprendizado. Mas a cientista, meio aflita, parecia não entender muito bem o que acontecia ali. Ela tentava entender como isso podia ser aprendizagem, parecia mais uma terapia, porque ela estava se curando toda ali. Ela não entendia como conseguia aprender com o que tinha dentro dela, nem como podia usar, com maestria, o que estava fora dela. Ela estava aprendendo a aprender, como melhor aprender. Mas isso não fazia muito sentido pra moça racional, cartesiana e lógica que ela era. Como que essa brincadeira podia ser aprendizado sério, ela se perguntava. Tadinha da cientista, ficou toda confusa. Passou a se perguntar qual era o lugar da imaginação no aprendizado? Eu comecei a olhar de longe o que acontecia na sala, estava aprendendo que era preciso saber fazer as perguntas e não ansiar pelas respostas. Eu sabia que precisava levar as perguntas para passear. Aí me perguntei como eu podia fazer com que esse conhecimento interno, conversasse com as durezas do mundo. E naquele momento os erros não me aterrorizavam mais, eu estava em paz com as dúvidas e as perguntas e a angústia era uma coisa boa, eu não tinha pressa de me livrar delas. Vi a bailarina e a cientista se olharem, tudo parecia muito confuso, mas meio sem jeito começaram uma conversa. Elas sabiam que as histórias conduziam a criatividade a imaginação, mas pensavam, cada uma a seu modo, que algo devia estar muito errado no jeito comum de aprender. Naquela sala, elas se sentiam mais vivas. Ouvindo a conversa das duas, fiquei pensando no quanto as escolas mais parecem prisões e em como estamos deixando de viver experiências significativas no nosso dia a dia. A vida parece que foi fragmentada em pedacinhos muitos minúsculos e a gente não consegue mais sentir o sagrado da vida, mesmo que ele não seja necessariamente divino. Meu corpo, antes enrijecido, agora está pulsante, se sentindo livre. E inquieto me pergunta como nós, eu e ele, devemos agir a partir de agora...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

É tempo de estrada!

É tempo de estrada! E o coração chega a doer de tanta beleza.