sábado, 11 de junho de 2016

Esses dias...

Minha recompensa é a alegria do retorno

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Uma casa chamada SP

Recebi um convite para um trabalho. Um convite meio inusitado. Era um projeto piloto de fazer o olho brilhar, que juntava fotografia com educação e as relações com a cidade. Haviam dois parceiros nesta empreitada: o moço já era amigo, a moça, vestida de branco, eu nunca tinha visto.
Entrei na sala de reunião meio insegura, meio atrapalhada. Fiz umas perguntas meio bobas e um tanto simples, mas para minha surpresa um universo fotográfico surgiu ali. Em encontro, um mundo em comum se desvendou bem no meio daquela sala cinza e de sua paisagem de telhados. A moça, com seu discurso de um passado-presente, me causou estranhamento e felicidade. E nós seguimos.
Os encontros foram acontecendo e não sei exatamente bem quando se solidificaram. Talvez no meio de uma travessia de uma praça, com um quase-tombo. Ela contou desse tombo a uma outra moça que perguntou se eu havia achado normal. É, eu achei. Não havia porque não achar.
Chegamos na vida uma da outra, com o entendimento de que a fotografia se mistura e afeta nossas relações. Parece que chegamos de longe para estabelecer pontes. A gente traz a casa chamada Recife uma pra outra.

Obrigada, Lu. Hoje você me devolveu a escrita!

Conter a água pra que?

Me encolho na cadeira de tanto frio. O computador pequeno me estranha as mãos. A cozinha se constrói a cada dia como o nosso lar. A mesa amarela que você insiste em deixar bagunçada, a pia pequena com pouca louça, mas que aparenta ser muita. A gata que faz bagunça na área de serviço e você no quarto colocando a pequena para dormir.
A vida já não é mais a mesma, meu amor. Abandonei a escrita, a dança e a fotografia. Deixei no canto a palavra, o corpo e a câmera. O corpo, este companheiro a quem durante tanto tempo neguei prazeres, agora está tenso de frio e de dores passadas. Os ombros doem, enquanto te escuto ninar a pequena. Ela que hoje me levou para selva e para o encontro com uma onça ferida. Ela que chegou com tantas explicações para a mãe que ela escolheu e estava um tanto angustiada.
Eu preciso alimentar minha família, foi minha fala muitas vezes hoje. E agora me dou conta dos tantos alimentos e que, talvez, o que ande faltando seja me alimentar do verde que me nutre os intestinos, da dança que me alimenta o corpo, da luz que me conduz o olhar.
A vida não é mais a mesma e a morte já não me dói mais, mas ainda há água represada a querer jorrar. Não sei o que temo. Pra que conter a água?
Pra que conter a água?

sábado, 19 de outubro de 2013

Pé de vento!

Às vezes eu tenho receio de dizer certas coisas, pois temo não ser entendida...
Hoje eu acordei a própria poesia. Como se a vida estivesse cheia de sentido pleno, como se a arte a ela se misturasse e a beleza se fizesse presente. Hoje fui presenteada com uma palavra: a querência... Palavra tão bonita que me trouxe de volta paisagens internas belas e profundas. Me vejo como um espiral de vento a dançar. Uma alegria só! Várias coisas me trazem a esse momento, mas de alguma maneira, que ainda não sei qual, fui conduzida a esse lugar de graça que sinto agora. Meio insano tudo isso, mas prefiro me deleitar com o girar do vento à pensar qualquer coisa sobre ele.
Só tenho a agradecer. E torço para que a gentileza alheia entenda esse transbordar de vida como se olhasse a beleza do bater de asas de uma borboleta pousada nas mãos. E nada além disso.

Hoje fui tocada na alma por um dia lindo de sol.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Eu-Ogum!


Contos, histórias, mitos, masculino e feminino, arquétipos, self, alma.
Desdobra, desdobra, desdobra.
Conhece o corpo a partir do osso, oco, poroso, cheiro de sangue, de vida.
Toca, aperta, corta, entra, massageia, sente, vive!
“Ogum violenta e maltrata as mulheres”. Mergulha no mito, ultrapassa a primeira camada da história, conversa com ela... O que ela trouxe pra mim, o que eu tenho pra ela?
Ogum sou eu, homem e mulher. Eu-homem violento eu-mulher?
O osso, os ossos...
A cintura superior, o centro. 
Ele vai ao chão, mergulha no asfalto, roça, bate, machuca, estupra, quebra, corta, torce, destrói.
Parede, peito, clavícula, dor presa. 
Dor, dor, dor, dor.
O feminino morto, despedaçado. O feminino inteiro, fragmentado.
Fui eu, minha irmã, minha mãe, minha tia. Foi você. Sim, foi você.
O corpo se arrasta, cai, precisa se manter vivo, sobreviver. E luta, luta, luta. Luta para se transformar. Busca a força dos ossos estilhaçados. Junta e cola tudo, dentro do casulo. Espera solidificar...
Dói, dói, dói...
É a mesma espada, o mesmo braço, o mesmo peso.
As asas estão cheias de resina. Não é possível voar. Há ainda que se criar cicatrizes, raízes aéreas, asas feitas de ossos.
O peito dói. O ventre está oco.
Fui eu mesma quem me violentou?
Que direito você tinha de fazer isso comigo, com ela, conosco?
O corpo é uma festa, mas ainda há tristeza em volta.
Amor? Amor!

sábado, 11 de maio de 2013

Receita para arrancar poemas presos

A maioria das doenças que as pessoas têm
São poemas presos.
Abscessos, tumores, nódulos, pedras são palavras calcificadas,
Poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado.
Prisão de ventre poderia um dia ter sido poema.
Mas não.
Pessoas às vezes adoecem da razão
De gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida
Escorrendo em estado de lágrima
Lágrima é dor derretida.
Dor endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida.
Alegria endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida.
Raiva endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida.
Pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor.
Tempo derretido é poema
Você pode arrancar poemas com pinças,
Buchas vegetais, óleos medicinais.
Com as pontas dos dedos, com as unhas.
Você pode arrancar poemas com banhos
De imersão, com o pente, com uma agulha.
Com pomada basilicão. Alicate de cutículas.
Com massagens e hidratação.
Mas não use bisturi quase nunca.
Em caso de poemas difíceis use a dança.
A dança é uma forma de amolecer os poemas,
Endurecidos do corpo.
Uma forma de soltá-los,
Das dobras dos dedos dos pés, das vértebras.
Dos punhos, das axilas, do quadril.
São os poema cóccix, os poemas virilha.
Os poema olho, os poema peito.
Os poema sexo, os poema cílio.
Atualmente ando gostando de pensamento chão.
Pensamento chão é poema que nasce do pé.
É poema de pé no chão.
Poema de pé no chão é poema de gente normal,
Gente simples,
Gente de espírito santo.
Eu venho do espírito santo
Eu sou do espírito santo
Trago a Vitória do espírito santo
Santo é um espírito capaz de operar milagres
Sobre si mesmo.


Viviane Mosé

terça-feira, 7 de maio de 2013

Há que se silenciar os ossos

Hoje é preciso silenciar. Há que se silenciar os olhos, o suspiro, o sopro, a traqueia, o peito, o ventre, o sangue e os ossos, principalmente os ossos. As sincronias de hoje me fizeram compreender a vacuidade desses canos porosos, ocos, que absorvem, trocam, são vazios e ao mesmo tempo cheios de vida. Vida que flui como o pulsar do coração, como o movimento dos pulmões. É chegado o tempo da escuta, do nascimento, do bater das asas, do amolengar os poemas endurecidos do corpo, da dança. Resolvi segui a receita e usei a dança para libertar os poemas presos do meu corpo. Forjei com ferro o corte de liberdade e esperei o casulo se abrir. Tive minhas asas massageadas, acariciadas, cuidadas e admiradas, não porque eram minhas, mas porque eram asas. E as asas precisam descobrir sua extensão para poder voar. Em silêncio, com gosto de ferro e corte, saí do casulo e vi minhas asas de borboleta começarem a bater fortes. Era o osso, vazio e cheio, pulsante e vivo, querendo voar.

domingo, 28 de abril de 2013

Canto de Sereia

A fotografia é esse canto de sereia perturbador que afasta os heróis da sua trajetória, desvia percursos, apresenta estradas sinuosas, projeta tormentas, abala estruturas. Pobre daqueles que se deixam encantar, estão condenados a um destino de entradas e saídas, do abrir e fechar inadvertido de janelas para momentos fugazes.

Valdenira Barros, na dissertação Instantâneos do Tempo: Fotografia e Memória nas "Viagens de Trem".